Cirurgia Veterinária:da assepsia ao pós-operatório
Um material vivo, organizado em módulos navegáveis. Cada tópico se expande com conceitos, técnicas e pontos de atenção da rotina cirúrgica em pequenos e grandes animais.
39
Módulos
7
Eixos
∞
Em expansão
A cirurgia veterinária exige um conjunto de medidas destinadas a reduzir a contaminação microbiana e prevenir infecções no paciente. Nesse contexto, os conceitos de assepsia, antissepsia, desinfecção e esterilização são fundamentais.
Assepsia
A assepsia corresponde ao conjunto de técnicas e medidas utilizadas para impedir ou reduzir a entrada de microrganismos em um ambiente, material ou campo cirúrgico. Seu objetivo é manter o procedimento cirúrgico o mais livre possível de contaminação, diminuindo o risco de infecção do sítio cirúrgico.
Esterilização dos instrumentais cirúrgicos
Preparo adequado da equipe
Higienização das mãos
Utilização de avental, luvas, máscara e gorro
Preparo adequado do paciente
Tricotomia quando indicada
Antissepsia da pele
Utilização correta dos campos cirúrgicos
Manutenção da técnica estéril durante todo o procedimento
Antissepsia
A antissepsia consiste na aplicação de substâncias químicas sobre tecidos vivos, principalmente a pele, com o objetivo de reduzir ou controlar a quantidade de microrganismos presentes no local. Os antissépticos devem apresentar atividade antimicrobiana adequada, ser seguros para os tecidos e possuir baixa toxicidade quando utilizados corretamente.
Clorexidina
Amplo espectro de ação e atividade residual, sendo amplamente utilizada no preparo da pele. Cuidado com a aplicação em olhos e estruturas do ouvido, pois pode causar lesões importantes.
Povidona-iodo
Ação contra bactérias, vírus e fungos; utilizada no preparo da pele e em tratamentos tópicos. Apesar da boa margem de segurança, o uso repetido pode causar irritação ou dermatite.
Álcool
Ação antimicrobiana rápida, podendo ser associado a outros antissépticos. Apresenta pouca ação residual e pode causar irritação ou ressecamento da pele.
A limpeza deve preceder a antissepsia: matéria orgânica, sangue e sujidades reduzem a eficácia de alguns agentes antissépticos.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Cirurgia reparadora
Tem como objetivo corrigir ou reparar alterações anatômicas e funcionais decorrentes de traumas, feridas, defeitos teciduais, alterações congênitas ou consequências de procedimentos anteriores. Busca-se restaurar, dentro do possível, a função do tecido ou órgão e melhorar sua condição anatômica.
Um exemplo seria a correção cirúrgica de uma ferida extensa após um trauma, na qual existe perda de tecido e comprometimento da função ou proteção da região.
Cirurgia reconstrutiva
Utilizada quando existe um defeito tecidual que não pode ser fechado adequadamente por uma simples aproximação das bordas da ferida.
Retalhos cutâneos
Enxertos
Reconstrução de tecidos
Utilização de diferentes planos de fechamento
Técnicas de redução da tensão sobre a ferida
O objetivo é reconstruir a região afetada, proporcionando cobertura adequada, preservação da função e, quando possível, melhor resultado estético.
Reparadora e reconstrutiva são conceitos relacionados, mas não necessariamente sinônimos: uma cirurgia pode reparar uma estrutura sem exigir técnicas reconstrutivas complexas.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Os procedimentos cirúrgicos podem ser classificados de acordo com diferentes critérios.
Quanto à gravidade
Cirurgia leve
Menor complexidade e, em condições normais, baixo risco de comprometimento grave da vida do paciente.
Cirurgia grave
Maior complexidade e maior possibilidade de complicações ou comprometimento sistêmico.
A classificação deve considerar o estado clínico do animal, o tipo de procedimento, a extensão da intervenção e os riscos anestésicos e cirúrgicos.
Quanto à complexidade
Simples
Menor complexidade técnica, geralmente envolve uma estrutura ou região limitada e possui menor duração.
Composta ou complexa
Maior número de estruturas anatômicas, maior manipulação tecidual ou técnicas mais elaboradas.
Quanto à presença de sangramento
Cruenta
Ocorre abertura dos tecidos e, consequentemente, existe sangramento associado ao procedimento.
Incruenta
Pouca ou nenhuma produção de sangue, ou procedimentos sem incisão significativa dos tecidos.
Quanto ao planejamento
Regular
Realizada de maneira planejada, seguindo sequência previamente estabelecida — como a ovariohisterectomia eletiva em fêmea clinicamente estável.
Irregular ou não programada
Realizada sem planejamento prévio ou quando uma condição inesperada exige intervenção.
Quanto à urgência
Eletiva
Pode ser programada sem que o adiamento por determinado período represente risco significativo — por exemplo, esterilização em animais estáveis.
Urgência
Necessita intervenção em curto período para evitar agravamento, mas não necessariamente há risco imediato de morte.
Emergência
Existe risco iminente à vida ou à função de um órgão: a intervenção deve ocorrer imediatamente.
Cirurgia paliativa
Tem como objetivo melhorar a qualidade de vida do paciente ou aliviar sinais clínicos, sem necessariamente eliminar a causa ou promover a cura. Pode ser indicada quando a doença não pode ser completamente removida, mas existe possibilidade de reduzir dor, obstrução, sangramento ou outras alterações que comprometam o bem-estar do animal.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O planejamento pré-operatório é uma das etapas mais importantes da cirurgia veterinária. Antes de realizar um procedimento, o médico-veterinário deve avaliar:
Indicação da cirurgia
Estado geral do paciente
Exames complementares
Risco anestésico
Condições cardiovasculares e respiratórias
Hidratação
Presença de anemia ou alterações metabólicas
Necessidade de estabilização prévia
Disponibilidade de equipamentos
Capacidade técnica da equipe
Cuidados pós-operatórios necessários
Avaliação e estabilização
A anamnese deve identificar evolução da doença, tratamentos prévios, última ingestão de alimento e água, reações anestésicas, estado reprodutivo e comorbidades. O exame físico inclui temperatura, hidratação, mucosas, perfusão, auscultação cardiopulmonar e, em grandes animais, motilidade gastrointestinal e condições de aprumo e decúbito.
Hemograma, proteínas plasmáticas e avaliação da coagulação quando indicados
Função renal, eletrólitos, glicemia e equilíbrio ácido-base conforme o risco
Correção de choque, desidratação, distúrbios eletrolíticos e hipoxemia antes da anestesia, sempre que possível
Definição da classificação da ferida e da necessidade de profilaxia antimicrobiana
Planejamento da hemostasia, materiais, posicionamento, recuperação e eventual encaminhamento
Jejum e segurança
O jejum reduz o conteúdo gastrointestinal e o risco de regurgitação, mas sua duração varia entre espécies, idade, dieta, procedimento e urgência. Neonatos, pacientes debilitados e herbívoros exigem protocolos específicos; a água não deve ser retirada automaticamente por períodos prolongados. Em emergências, compara-se o risco do adiamento ao risco anestésico de um paciente sem jejum.
Perguntas que orientam a decisão
A cirurgia realmente é necessária?
O que pode acontecer caso o procedimento não seja realizado?
O procedimento está dentro da capacidade técnica do cirurgião e da estrutura disponível?
Existem recursos para atender possíveis complicações?
Qual é o impacto econômico e emocional do procedimento para o tutor?
Essas questões ajudam a estabelecer uma decisão cirúrgica mais segura e individualizada.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O preparo pré-operatório pode envolver:
Passo a passo
1Contenção adequada
2Avaliação clínica
3Estabilização do paciente
4Medicação pré-anestésica
5Tricotomia, quando indicada
6Limpeza e antissepsia
7Posicionamento adequado
8Colocação dos campos cirúrgicos
9Estabelecimento de acesso vascular quando necessário
10Monitorização anestésica
A sequência pode variar de acordo com a espécie, condição clínica e tipo de cirurgia.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Em grandes animais, especialmente bovinos e equinos, técnicas de anestesia local e regional possuem grande importância, principalmente em procedimentos realizados a campo.
Anestesia local por infiltração
Anestesia regional
Bloqueios nervosos
Anestesia epidural
Sedação associada à analgesia
A escolha depende da espécie, região anatômica, procedimento, temperamento do animal e condições clínicas.
Plano anestésico e monitorização
O plano combina contenção, sedação, analgesia, anestesia local ou geral e estratégia de recuperação. Deve prever oxigênio, acesso venoso, equipamento de emergência e um responsável exclusivo pela monitorização. A profundidade anestésica é ajustada à resposta do paciente, nunca apenas ao tempo decorrido.
Frequência e padrão respiratório, oxigenação e ventilação
Frequência e ritmo cardíaco, pulso, perfusão e pressão arterial
Temperatura, reflexos, tônus e profundidade anestésica
Posicionamento e acolchoamento para prevenir neuropatias e miopatias
Registro periódico dos parâmetros, fármacos, fluidos e intercorrências
Lidocaína 2%
A lidocaína bloqueia os canais de sódio, impedindo a comunicação dos impulsos nervosos — é o anestésico local de referência nos bloqueios deste guia.
Anestesia por infiltração
Consiste na aplicação do anestésico local diretamente nos tecidos próximos à área que será manipulada.
Sutura de feridas
Remoção de pequenas lesões
Procedimentos cutâneos
Pequenas intervenções cirúrgicas
Estabelecer limites com marcação subcutânea
Aplicar pequena quantidade do agente no ponto inicial
Reinserir as agulhas em regiões já infiltradas
Evitar infiltrar em “leque”, pois causa danos aos tecidos
A infiltração deve ser planejada para proporcionar bloqueio adequado da região, evitando excesso de manipulação ou trauma desnecessário dos tecidos. A concentração e o volume do anestésico devem ser calculados considerando a espécie, peso, local de aplicação e dose máxima segura.
Bloqueios citados em aula
Bloqueio do nervo cornual: analgesia do chifre, principalmente em bovinos (detalhes no módulo de descorna)
Analgesia local intravenosa de Bier: torniquete acima da região, punção de veia distal, injeção de lidocaína e espera de 5 a 10 minutos (detalhes no módulo de amputação de dígito)
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A anestesia regional promove bloqueio da sensibilidade de uma região maior por meio da deposição do anestésico próximo a nervos ou estruturas responsáveis pela inervação da área.
Bloqueio em L invertido (45°)
Técnica utilizada principalmente em bovinos, no formato de “L” invertido (45°), para laparotomias pelo flanco ou qualquer procedimento cujo acesso seja pelo flanco. O anestésico é infiltrado em pontos estratégicos ao redor da região que será submetida à incisão, bloqueando a condução nervosa da área.
Cuidado ao se aproximar do abdômen: o anestésico pode atingir o peritônio e causar toxicidade por alta absorção. É frequentemente utilizado em procedimentos como laparotomias pelo flanco.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A anestesia ou analgesia epidural consiste na administração de anestésico local, isoladamente ou associado a outros fármacos, no espaço epidural.
Em grandes animais, a técnica caudal é particularmente importante para procedimentos envolvendo a região perineal, cauda, reto e estruturas relacionadas. Em bovinos, pode ser realizada na região sacrococcígea ou intercoccígea, conforme a anatomia e a técnica utilizada.
Quanto à extensão, a analgesia epidural pode ser cranial (alta) ou caudal (baixa). Em equinos, o acesso descrito em aula é entre C1 e C2 (acesso subaracnoide cervical); evita-se a abordagem cranial nessa espécie devido ao risco de atonia intestinal, hipomotilidade intestinal e íleo paralítico — complicação importante em equinos.
Associação de fármacos
A associação de lidocaína com agonistas α2, como detomidina ou xilazina, melhora sedação, analgesia e relaxamento muscular.
A escolha do fármaco, concentração, volume e local de aplicação deve considerar a espécie e o objetivo do bloqueio.
Anestesia promove perda de sensibilidade; analgesia reduz ou elimina a percepção da dor sem necessariamente produzir perda completa da sensibilidade.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A sedação pode ser utilizada para facilitar a contenção e reduzir medo, estresse e movimentação do animal.
Em grandes animais, os agonistas α2-adrenérgicos são frequentemente utilizados, especialmente em bovinos e equinos, porém apresentam diferenças importantes de dose, resposta e segurança entre as espécies.
A xilazina, por exemplo, produz sedação, relaxamento muscular e algum grau de analgesia, mas pode causar alterações cardiovasculares e respiratórias, além de possuir maior sensibilidade em bovinos.
Doses citadas em aula (referência de estudo)
Xilazina — bovinos
0,05 a 0,3 mg/kg, IM ou IV, produzindo sedação leve a intensa conforme a dose.
Acepromazina
0,02 a 0,1 mg/kg, IV ou IM, como tranquilização/medicação pré-anestésica.
Detomidina — equinos
20 a 40 µg/kg, IM ou IV, com efeito dose-dependente.
Medetomidina em equinos — por que não se usa
Sedação muito potente e bradicardia intensa
Redução acentuada da motilidade intestinal, com maior risco de cólica
Recuperação mais prolongada
Equinos são muito sensíveis aos agonistas α2 — por isso prefere-se xilazina, detomidina e romifidina (muito usada em equinos).
EGG (guaifenesina)
O éter gliceril guaiacolato (guaifenesina) é usado em equinos para indução anestésica, manutenção e relaxamento muscular, em associação com sedativos e anestésicos gerais.
A escolha do protocolo anestésico deve ser individualizada e realizada pelo médico-veterinário responsável. As doses de aula servem de referência de estudo e não substituem a fonte farmacológica atual.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A fluidoterapia possui papel fundamental na preparação e manutenção do paciente cirúrgico.
Manutenção da perfusão tecidual e da perfusão renal
Correção da desidratação
Fornecimento de líquido (manutenção)
Manutenção do equilíbrio hidroeletrolítico
Auxílio na manutenção do equilíbrio ácido-base
Reposição de perdas prováveis e esperadas
Reposição específica conforme histórico e achados de laboratório
Administração de determinados medicamentos
Suporte durante anestesia e recuperação
O plano de fluidoterapia deve ser individualizado e constantemente reavaliado.
Como montar o plano
O volume total considera déficit de desidratação, necessidades de manutenção e perdas contínuas ou previstas. A velocidade de correção depende da perfusão, da duração do déficit e das funções cardíaca e renal. Hemorragia importante exige avaliação de componentes sanguíneos; cristaloide não repõe capacidade de transporte de oxigênio.
Definir o objetivo: ressuscitação, reidratação, manutenção ou reposição de perdas
Escolher a solução a partir do exame clínico, eletrólitos e equilíbrio ácido-base
Medir a resposta por perfusão, pressão, diurese, peso, lactato e exames seriados quando disponíveis
Reduzir ou interromper a infusão diante de edema, congestão, ganho excessivo de peso ou piora respiratória
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A avaliação do estado de hidratação pode considerar:
Turgor cutâneo
Frequência e qualidade do pulso
Coloração das mucosas
Tempo de preenchimento capilar
Posição dos globos oculares
Frequência cardíaca
Débito urinário
Pressão arterial
Histórico de perdas
Exames laboratoriais
O tempo de preenchimento capilar prolongado, por exemplo, pode indicar alteração de perfusão, mas não deve ser interpretado isoladamente.
Cálculo do déficit de fluidos
Déficit (L) = peso corporal (kg) × percentual de desidratação. Um animal de 500 kg com 8% de desidratação apresenta 500 × 0,08 = 40 litros de déficit estimado.
Esse valor é apenas uma estimativa inicial. O paciente deve ser reavaliado durante a reposição para evitar tanto a sub-hidratação quanto a sobrecarga de volume.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A necessidade de manutenção representa o volume necessário para atender às perdas fisiológicas de água e eletrólitos. O cálculo pode variar conforme espécie, idade, estado clínico, função renal e protocolo adotado.
Exemplo: déficit de 40 L + manutenção de 25 L = 65 L em 24 h
Por isso, fórmulas fixas devem ser utilizadas como referência inicial e não como substituição da avaliação clínica. Durante a fluidoterapia, o volume deve ser parcelado e ajustado de acordo com a resposta do paciente.
Frequência cardíaca
Pressão arterial
Perfusão periférica
Mucosas
Débito urinário
Peso corporal
Eletrólitos
Função renal
Presença de edema ou outros sinais de sobrecarga
A reavaliação frequente é fundamental para evitar complicações associadas à administração excessiva de fluidos.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
As soluções utilizadas na fluidoterapia podem ser classificadas principalmente em cristaloides e coloides, e ainda, quanto à tonicidade, em isotônicas, hipotônicas e hipertônicas.
A escolha depende da condição clínica, do compartimento que necessita de reposição, dos eletrólitos, do estado de hidratação e dos objetivos da terapia.
Cristaloides
São soluções aquosas contendo partículas de pequeno peso molecular, como eletrólitos e outros solutos, capazes de atravessar a membrana capilar.
NaCl 0,9%
NaCl 0,45%
Ringer com lactato
Soluções balanceadas
Glicose a 5%
Os cristaloides isotônicos balanceados, como o Ringer com lactato, são amplamente utilizados na prática clínica.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Uma solução isotônica apresenta osmolaridade próxima à do plasma. Exemplos: NaCl 0,9% e Ringer com lactato.
Essas soluções são utilizadas principalmente para reposição de volume e correção de determinados déficits hidroeletrolíticos.
Grande parte do cristaloide isotônico administrado por via intravenosa deixa o compartimento intravascular e distribui-se pelo espaço extracelular. Por isso, o paciente precisa ser monitorado durante a administração.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
As soluções hipotônicas apresentam osmolaridade inferior à do plasma. Exemplo: NaCl 0,45%.
A administração de soluções hipotônicas favorece a movimentação de água para o espaço intracelular e, portanto, não é a escolha adequada para ressuscitação volêmica de pacientes em choque.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
As soluções hipertônicas apresentam concentração de solutos, especialmente sódio, superior à do plasma. Um exemplo é o NaCl hipertônico a 7,5%.
Seu mecanismo de ação envolve o aumento da osmolaridade intravascular, promovendo deslocamento rápido de água do compartimento intersticial para o intravascular, o que permite expansão rápida do volume circulante com volumes relativamente pequenos.
Não deve ser utilizada de maneira indiscriminada. Em pacientes desidratados, o uso inadequado pode agravar a hiperosmolaridade e provocar complicações neurológicas. Seu efeito é temporário e deve integrar um plano de reposição adequado.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O Ringer com lactato é um cristaloide balanceado e isotônico. Sua composição contém principalmente:
Sódio
Cloreto
Potássio
Cálcio
Lactato
O lactato presente na solução funciona como um precursor de bicarbonato, sendo metabolizado pelo organismo, principalmente no fígado, contribuindo para o equilíbrio ácido-base em determinadas situações.
É incorreto afirmar que o lactato do Ringer “destrói o fígado”. O uso deve apenas ser individualizado em pacientes com alterações metabólicas ou hepáticas relevantes.
É utilizado em diversas situações, incluindo reposição de fluidos, desidratação e suporte durante procedimentos cirúrgicos.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A solução de glicose a 5% contém aproximadamente 5 g de glicose a cada 100 mL. Embora inicialmente tenha osmolaridade próxima ou inferior à do plasma, após a metabolização da glicose seu efeito fisiológico se aproxima do fornecimento de água livre.
Hipoglicemia
Algumas necessidades de aporte de água livre
Determinadas situações metabólicas
Não deve ser utilizada isoladamente como solução de escolha para ressuscitação de um paciente hipovolêmico, pois não proporciona expansão intravascular sustentada adequada.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O chamado soro fisiológico é uma solução de cloreto de sódio a 0,9%. É um cristaloide isotônico, porém não é uma solução balanceada e não contém tampão. Pode ser utilizado em diferentes situações clínicas, dependendo do distúrbio apresentado pelo paciente.
Na⁺: 154 mEq/L
Cl⁻: 154 mEq/L
Por possuir concentração relativamente elevada de cloreto, a administração de grandes volumes pode favorecer alterações do equilíbrio ácido-base, especialmente acidose metabólica hiperclorêmica.
A escolha entre NaCl 0,9%, Ringer com lactato e outras soluções deve ser baseada nas necessidades do paciente, e não na ideia de que um tipo de soro é sempre melhor que outro.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
A transfusão de sangue total tem como objetivo aumentar a capacidade de transporte de oxigênio. A concentração de hemoglobina é determinante no transporte de oxigênio e o hematócrito é a medida mais consistente para identificar a necessidade de transfusão.
Indicações
Anemia grave, com perda de sangue súbita ou compensada
Anemia regenerativa (por hemólise ou hemorragia aguda)
Anemia não regenerativa (por insuficiência medular) — transfundir de acordo com o quadro clínico, idade e tamanho
Distúrbios da coagulação (não é transfusão de sangue total; usa-se plasma)
Indicadores de transfusão (hematócrito)
Hematócrito ≤ 15%
Transfusão indicada.
Hematócrito ≤ 21%
Considerar transfusão: em bexiga (não regenerativa) — transfunde-se; em alguns casos, de acordo com a sintomatologia e com o grau de tolerância do animal (quando regenerativa, há tempo de tolerância, pois o animal produz hemácias novas).
Volume transfundido
20 mL/kg de sangue total (não se substitui o volume total do animal).
Estabilidade
Pode-se diluir o sangue em soluções cristaloides (Ringer lactato), para evitar trombose.
É preciso considerar a cinética: a transfusão não é a solução final, e o tratamento da causa-base deve ser conduzido em paralelo.
Crossmatch
Teste de compatibilidade entre o sangue do doador e do receptor, essencial em animais já transfundidos. Os bovinos possuem pelo menos 11 grupos sanguíneos e mais de 60 fatores — por isso, o teste de compatibilidade é essencial.
Prova maior
Avalia a reação do soro do receptor com as hemácias do doador — detecta anticorpos pré-formados contra as hemácias doadas.
Prova menor
Avalia a reação do soro do doador com as hemácias do receptor — importante quando o doador tem anticorpos contra as hemácias do receptor.
Aglutinação
Indica incompatibilidade: não se transfunde se houver aglutinação ou hemólise.
Seleção do doador e coleta
Animal jovem, adulto, saudável, com bom nível nutricional, peso corporal adequado e sem histórico de doenças hemoparasitárias
Volume máximo de coleta: 1% do peso corporal (aproximadamente 4% do volume sanguíneo; considerando o volume sanguíneo de 60 mL/kg, dá 20 mL/kg para o receptor)
Coleta em frascos com anticoagulante (citrato, EDTA, heparina ou CPDA-1)
Agitar suavemente o frasco durante a coleta para homogeneizar o anticoagulante
A técnica de coleta deve ser asséptica
Técnica de transfusão
Passar sangue total através de filtro de transfusão (evita microcoágulos e embolia)
Cuidado com a temperatura: não aquecer o sangue acima de 37 °C (risco de hemólise)
Iniciar lentamente (primeiros 10 minutos, cerca de 1 mL/kg) e observar reações
Completar a transfusão em 3 a 4 horas
Monitorar constantemente: temperatura, mucosas, frequência cardíaca e respiratória
Reações adversas e manejo
Reações imunomediadas
Aglutinação, hemólise intravascular, hemoglobinúria, icterícia, febre, taquicardia, taquipneia, inquietação, tremores e choque. Podem ocorrer na primeira transfusão (receptores com anticorpos pré-formados) ou após sensibilização prévia.
Reações não imunomediadas
Febre, septicemia (contaminação bacteriana), sobrecarga de volume, embolia por microcoágulos e tromboembolismo, acidose, hipocalcemia (citrato), hipercalemia e hipotermia.
Conduta
Ao sinal de reação, interromper imediatamente a transfusão, monitorar os sinais vitais e iniciar suporte: fluidoterapia, corticosteroides (dexametasona), anti-histamínicos (prometazina) e adrenalina em caso de choque anafilático.
A transfusão de sangue total substitui as hemácias, mas o tratamento da doença de base (hemoparasitose, hemorragia, falha medular) deve ser conduzido simultaneamente.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O período pós-operatório é fundamental para a recuperação do animal. Os cuidados dependem do tipo de procedimento realizado, da espécie, idade, condição clínica e presença de complicações.
Restrição de espaço e movimentos
Pode ser necessária para evitar abertura da ferida, sangramento, formação de seroma ou comprometimento da sutura.
Alimentação
A dieta deve ser adequada ao procedimento e ao estado clínico do animal. Sempre que possível e quando não houver contraindicação, a retomada da alimentação deve ser planejada de acordo com a recuperação anestésica e a condição gastrointestinal.
Administração de medicamentos
Analgésicos
Anti-inflamatórios
Antibióticos, quando indicados
Outros medicamentos específicos para a doença ou procedimento
Cuidados com a ferida
A ferida cirúrgica deve ser observada diariamente quanto a:
Edema
Vermelhidão
Calor
Dor
Secreção
Sangramento
Deiscência
Alterações de odor
A utilização de medicamentos tópicos deve ser realizada somente quando houver indicação.
Monitorização
A evolução do paciente deve ser acompanhada por avaliação clínica periódica, para identificar precocemente:
Infecção
Hemorragia
Deiscência
Seroma
Edema
Dor inadequadamente controlada
Alterações sistêmicas
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
O dígito lateral é o mais acometido. A amputação é indicada quando as estruturas profundas do dedo estão irreversivelmente comprometidas e o tratamento conservador não apresenta resposta.
Indicações
Fraturas na falange distal
Necrose do casco
Abscessos com osteoartrite
Lesões profundas sem resposta aos tratamentos
Pododermatite séptica grave
Osteíte ou osteomielite da falange
Artrite séptica interfalangeana
Analgesia local intravenosa (bloqueio de Bier)
Técnica no próprio membro: coloca-se um torniquete acima da região a ser anestesiada, identifica-se uma veia distal e injeta-se anestésico local — geralmente lidocaína 2% sem vasoconstritor. Após 5 a 10 minutos, o membro fica anestesiado. O torniquete deve ser retirado antes de fechar o retalho cutâneo.
Passo a passo
1Contenção adequada do animal, limpeza/antissepsia e tricotomia ampla da região, especialmente no espaço interdigital
2Aplicação do garrote (torniquete elástico ou borracha) acima do local da cirurgia
3Punção de veia superficial distal ao garrote (digital dorsal comum ou plantar)
4Injeção de lidocaína 2% sem vasoconstritor (aproximadamente 20–30 mL)
5Aguardar 5–10 minutos para instalação do bloqueio antes de iniciar a incisão
6Manter o garrote durante todo o procedimento e retirá-lo antes de fechar o retalho cutâneo
Utilizar sempre lidocaína SEM vasoconstritor: em um segmento isquemiado pelo garrote, o vasoconstritor aumenta o risco de necrose tecidual. Xilazina 2% é citada em aula apenas como último recurso.
Técnica cirúrgica
Incisão nas linhas axial e abaxial — vertical e horizontal — na região do espaço interdigital.
Passo a passo
1Incisão no espaço interdigital em direção à articulação interfalangeana
2Seccionamento do dígito: pode-se usar serra de Gigli, serra obstétrica ou serra de cano
3Remoção do dígito acometido e curetagem de tecido necrótico remanescente
4Hemostasia, revisão da ferida e aproximação parcial dos tecidos
5Curativo compressivo e retirada gradual do garrote
A movimentação da serra não deve ser rápida: gera calor, pode causar necrose óssea e atrasar a cicatrização. O corte deve ser feito em aproximadamente 45°, o que proporciona melhor apoio do dígito remanescente, melhor drenagem e melhor cicatrização.
Fechamento e cicatrização
A região é altamente contaminada: o fechamento completo aumenta o risco de infecção. Normalmente realiza-se fechamento parcial ou cicatrização por segunda intenção, sempre permitindo drenagem. A cicatrização leva aproximadamente 45 dias (de 30 a 60 dias, conforme a infecção e o manejo).
Sulfadiazina em excesso aplicada topicamente pode retardar a cicatrização, com retardo da granulação e irritação tecidual
Mais usados atualmente: oxitetraciclina spray, curativos secos e bandagens
Pós-operatório
Manter o animal em local com pouca movimentação
Fácil acesso à água e à comida
Troca de curativo a cada 2 ou 3 dias
Antibiótico sistêmico
AINE sistêmico
Complicações e prognóstico
Hemorragia ao liberar o garrote
Infecção ascendente, osteomielite ou persistência de tecido necrótico
Deiscência, atraso de cicatrização e sobrecarga do dígito remanescente
Alteração de apoio e perda de desempenho produtivo
Prognóstico geralmente favorável, embora com sobrevida (vida produtiva) diminuída.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
Enucleação é a remoção completa do globo ocular e estruturas associadas; a exenteração remove também o conteúdo orbitário. Indicações: neoplasias oculares extensas, traumas extensos, perfuração ocular, infecção ocular grave e glaucoma irreversível. É uma cirurgia não estética.
Contenção e sedação
Preferível o animal em estação, principalmente bovinos, pois a cirurgia é demorada
Sedação com agonistas α2, como xilazina ou detomidina
Bloqueio retrobulbar
Realizado antes da cirurgia. Usa-se geralmente lidocaína, aplicada nas regiões dorsal, ventral, medial e lateral da órbita — em bovinos, cerca de 10 mL em cada ponto (aproximadamente 40 mL no total). Tomar cuidado para não perfurar o globo ocular.
Quatro pontos de punção: dorsal, ventral, medial e lateral
Aspirar antes de injetar para evitar injeção intravascular
Complementar com bloqueio das pálpebras (aurículopalpebral / infiltração local)
Técnica cirúrgica
Passo a passo
1Sedação, tricotomia ampla e antissepsia
2Bloqueio retrobulbar
3Sutura temporária das pálpebras (tarsorrafia temporária)
4Incisão ao redor do olho
5Divulsão dos tecidos
6Seccionamento dos músculos extraoculares
7Seccionamento do nervo óptico
8Remoção do globo ocular
A enucleação é cirurgia cruenta: usar compressa e fazer hemostasia rigorosa. O fechamento cutâneo é realizado com fio de nylon 0.
Compressa na órbita
Coloca-se compressa na órbita, que pode ser fixada com nylon
Normalmente é removida em 3 a 5 dias
1 a 2 semanas pode ser tempo excessivo, com risco de infecção
Pós-operatório
Antibiótico sistêmico em caso de sepse — ceftriaxona ou penicilina são citadas em aula
Curativo e proteção da ferida
Monitorar a cicatrização
Em caso de cicatrização retardada, suspeitar de neoplasia, infecção, corpo estranho ou hematoma.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
A descorna cirúrgica remove o corno e o anel de pele adjacente, expondo o seio frontal em animais adultos.
Sedação e contenção
A xilazina deve ser avaliada: animal arredio → recomendada; procedimento mais seguro; reduz a movimentação e a motilidade ruminal; usar com cautela em animais debilitados
Tronco de contenção e cabeça bem imobilizada
Tricotomia
Tricotomia ampla — um chifre ou bilateral, dependendo do procedimento.
Bloqueio do nervo cornual
O nervo cornual é ramo do nervo zigomaticotemporal (principalmente em bovinos). Em bovinos adultos, pode ser necessário bloquear também o nervo infratroclear.
Local: próximo à base do chifre, na linha entre o olho e a base do chifre
Lidocaína (cerca de 5 mL por lado) e aguardar aproximadamente 5 minutos
Sangramento pelo nariz pode ocorrer porque o chifre se comunica com o seio frontal, que se comunica com a cavidade nasal.
Técnica
Passo a passo
1Incisão elíptica feita na base do chifre
2Seccionar o corno e controlar a hemostasia
3Sutura com fio de nylon 2, em pontos separados
4Às vezes não se fecha completamente — pode-se deixar drenagem
Pós-operatório
AINEs: flunixina meglumina ou meloxicam
Curativo com spray de prata
Monitorar infecção
Complicações e prognóstico
Sinusite (mais comum)
Hemorragia, infecção, miíase e deiscência de sutura
Prognóstico favorável.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
A laparotomia é indicada para confirmação diagnóstica ou intervenção cirúrgica nas afecções abdominais. A técnica mais comum é pelo flanco, com o animal em estação, geralmente sem anestesia geral, usando bloqueio em L invertido com lidocaína 2% sem vasoconstritor — volume médio de 30 a 40 mL.
Principais indicações
Exploratória
Confirmação diagnóstica e avaliação direta das vísceras quando exames não esclarecem a afecção.
Afecções ruminais
Ruminotomia para corpos estranhos, evacuação ruminal e timpanismos refratários.
Abomaso e obstetrícia
Deslocamento de abomaso, vólvulo abomasal e cesariana.
Locais de acesso à cavidade abdominal
Fossa paralombar esquerda
A via mais utilizada e mais segura. Permite avaliar rúmen, retículo, baço, rim esquerdo, parte do diafragma, aderências e abscessos.
Fossa paralombar direita
Permite avaliar fígado, vesícula biliar, abomaso (mais cranial), intestino delgado, duodeno, ceco, cólon, rim direito, útero (mais caudal), ovários e bexiga.
Paramediana ventral
Fica entre a linha média e a veia abdominal subcutânea, com o animal em decúbito dorsal e geralmente anestesia geral (que gera bradicardia). Procedimento rápido, o que prejudica a eructação. Na cesariana, a incisão vai do umbigo até próximo ao úbere; no deslocamento de abomaso, da parte cranial do umbigo até o processo xifoide. Indicada em cesárea complicada, feto enfisematoso, feto gigante e deslocamento de abomaso.
Oblíqua ventrolateral
Mesmas indicações da paramediana — cesariana complicada e evitar contaminação abdominal, especialmente em fetos enfisematosos ou mortos.
Anestesia e contenção
Tronco de contenção: indispensável para a segurança do animal e do cirurgião nos procedimentos em estação
Bloqueio paravertebral (T13, L1, L2): dessensibilização completa do flanco com amplo relaxamento muscular
Bloqueio em L invertido: fácil execução, com infiltração local de lidocaína 2% sem vasoconstritor
Técnica cirúrgica (flanco esquerdo)
Passo a passo
1Contenção e avaliação clínica (inclusive da motilidade ruminal)
2Tricotomia ampla, pensando em intercorrências — na possibilidade de precisar incisionar mais
3Antissepsia com clorexidina ou iodopovidona
4Bloqueio em L com lidocaína sem vasoconstritor (cerca de 40 mL na fossa paralombar esquerda); aguardar cerca de 5 minutos e incisionar
5Incisão de 5 a 10 cm abaixo do processo transverso, com largura de 20 a 25 cm
6Incisar pele e musculatura seguindo as camadas
7No rúmen: colocar luva de palpação, acessar e palpar toda a extensão, avaliando consistência, textura, presença de abscessos e aderências
A ingesta está na parte inferior do rúmen e a parte superior contém gás/ar. Em caso de reticuloperitonite traumática, faz-se ultrassonografia para avaliar abscesso reticular.
Planos anatômicos incisados
Passo a passo
11. Pele
22. Subcutâneo
33. Oblíquo externo (fibras crânio-ventrais)
44. Oblíquo interno (fibras caudo-ventrais)
55. Transverso
66. Peritônio (fina camada esbranquiçada)
77. Rúmen (parte da serosa)
Fechamento da parede abdominal
Peritônio e transverso
Usualmente fechados em conjunto, com fio absorvível nº 0 ou 1 (ex.: Vicryl, com reação tecidual limitada e duração de cerca de 60 dias). O fechamento é feito no sentido ventro-dorsal, para impedir que as vísceras “saiam”.
Musculatura
Pontos contínuos simples com ancoragem, festonado (rápido e eficiente) ou Wolff. A vaca leiteira não costuma ter musculatura muito robusta (incisão muscular de uma vez); na vaca robusta prefere-se fechar camada por camada, para evitar rompimento.
Pele
Fio inabsorvível, como nylon ou fio de pesca. O fio de pesca pode ser higienizado com clorexidina: tem boa ação residual (cerca de 6 horas), é efetiva contra bactérias Gram-positivas e negativas e é atóxica. A degermante deixa muito resíduo, por isso o fio pode ser mergulhado na solução aquosa ou alcoólica.
Pós-operatório
Antibióticos: ceftiofur, gentamicina ou penicilina, conforme indicação
Digestivo: metronidazol
Anti-inflamatórios: piroxicam ou meloxicam
Suporte, dependendo da causa-base: soro vitaminado e fluidoterapia
Curativos da ferida duas vezes ao dia, com pomada cicatrizante associada a antibiótico tópico (ganadol, citado em aula) e, depois, spray de prata
Mínimo de 10 a 14 dias de tratamento e restrição de espaço
A manipulação intestinal pode causar síncope vagal, além de bradicardia, hipotensão e queda do animal (perda de tônus postural).
O diagnóstico precoce e a escolha correta da via de acesso são determinantes para o prognóstico.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Indicações e escolha do acesso
É indicada quando exame clínico, ultrassonografia e outros métodos não esclarecem uma afecção abdominal, ou quando já existe indicação de correção cirúrgica. Em bovinos, o flanco permite exploração em estação; em equinos com abdome agudo, a celiotomia ventral mediana sob anestesia geral oferece acesso mais amplo.
Exploração sistemática
Passo a passo
1Inspecionar o líquido peritoneal quanto a volume, cor, odor e contaminação
2Examinar os órgãos acessíveis em sequência constante para não omitir regiões
3Avaliar posição, distensão, motilidade, espessura, cor e perfusão das vísceras
4Identificar obstrução, aderência, ruptura, isquemia, conteúdo anormal ou corpo estranho
5Corrigir a causa quando possível, controlar a contaminação e contabilizar compressas antes da síntese
Pós-operatório e complicações
Monitorar dor, perfusão, apetite, motilidade gastrointestinal, fezes e distensão abdominal
Ajustar fluidoterapia, analgesia e antimicrobianos à causa e ao grau de contaminação
Vigiar íleo, peritonite, aderências, infecção incisional, deiscência e hérnia incisional
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
A ruminotomia é a abertura do rúmen, realizada por laparotomia no flanco esquerdo (acesso pela fossa paralombal esquerda, onde o rúmen fica aderido à parede). A ruminostomia é a comunicação permanente entre o rúmen e o meio externo.
Corpos estranhos metálicos que perfuram a parede do retículo
Timpanismo espumoso ou gasoso refratário
Impactação ruminal e overdose alimentar
Avaliação da mucosa ruminal
Remoção de conteúdo ruminal tóxico
Contenção e anestesia
Contenção: tronco de contenção + animal em estação, com sedação leve se necessário
Anestesia: bloqueio em L invertido na região paralombal esquerda, com lidocaína 2% sem vasoconstritor
A placagem do rúmen é dolorosa, e o bloqueio em L fica na borda da fossa paralombal esquerda
Técnica cirúrgica
Passo a passo
1Colocar o animal no tronco de contenção e realizar o bloqueio em L
2Aguardar cerca de 5 minutos e incisionar
3Laparotomia no flanco esquerdo (pele, subcutâneo, oblíquo externo, oblíquo interno, transverso e peritônio)
4Afastar a parede abdominal e expor o rúmen
5Fazer sutura em bolsa de tabaco no rúmen (a bolsa de tabaco segura o rúmen na parede, evitando contaminação)
6Incisar o rúmen no centro da bolsa
7Esvaziar o rúmen (evacuação parcial ou total, conforme a indicação)
8Manter lavagem com solução fisiológica morna, remover corpos estranhos e, se necessário, explorar o retículo
9Fechar o rúmen em duas camadas (mucosa + muscular) e depois seromuscular, com fio absorvível
Um exemplo clássico: engolir um saco plástico. Em casos de óbito, na necropsia é comum encontrar sacos plásticos no rúmen — em animais jovens e gados de leite isso é frequente.
A técnica da incisão depende da lesão a ser corrigida; sempre usar técnica asséptica e evitar contaminação da cavidade peritoneal.
Ruminostomia
Fístula ruminal permanente (cânula), usada para tratamento de animais com quadros recorrentes de timpanismo ou como “janela ruminal” para manejo nutricional e administração de alimentos/medicamentos.
Requer manejo cuidadoso e monitoramento diário
Frequentemente utilizada em animais de experimentação, zoológicos e clínicas de referência
Pós-operatório
Antibióticos sistêmicos
Anti-inflamatórios
Suporte com fluidoterapia
Manter o animal em jejum relativo nas primeiras 12 horas e depois reintroduzir alimentação de forma gradual
Complicações e prognóstico
Contaminação da parede abdominal
Peritonite
Deiscência da ferida cirúrgica e deiscência do rúmen
Adesões intra-abdominais e peritonite séptica
Endotoxemia e toxemia, com risco de choque séptico
Prognóstico favorável quando diagnosticado precocemente e sem complicações graves.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
A cesariana é o método mais seguro quando o parto normal não é viável. Em bovinos, é uma das cirurgias mais comuns na rotina de campo. As indicações clássicas: feto em apresentação inadequada e não corrigível, feto gigante, feto morto ou enfisematoso, dilatação cervical incompleta e inércia uterina.
Contenção e anestesia
Tronco de contenção com animal em estação
Sedação com xilazina 2% (a xilazina pode reduzir a motilidade uterina)
Bloqueio em L invertido na fossa paralombal esquerda com lidocaína 2% sem vasoconstritor
Raramente usa-se anestesia geral, e o decúbito lateral é evitado (compressão torácica)
Técnica cirúrgica
Passo a passo
1Contenção no tronco e bloqueio em L invertido com lidocaína 2% sem vasoconstritor
2Aguardar cerca de 5 minutos e incisionar (incisão no flanco esquerdo, de 20 a 25 cm)
3Incisar pele, subcutâneo, musculatura (oblíquos, transverso) e peritônio
4Identificar e exteriorizar o corno uterino grávido (mais frequentemente o direito)
5Incisar o corno uterino na face antimesométrica (livre de vasos grandes)
6Retirar o feto, romper o saco e posicionar o umbigo para cima
7Remover as membranas fetais e inspecionar o corno contralateral
8Sutura do útero em duas camadas (crescente ou pontos separados) com fio absorvível
9Lavagem abundante da cavidade com solução fisiológica morna e remoção de coágulos
10Fechamento da parede abdominal em camadas
Cuidado para não contaminar a cavidade abdominal: utilizar compressas para isolar o útero e, se necessário, trocar de luvas e instrumentais.
Fechamento da parede abdominal
Peritônio e transverso
Fechamento em conjunto com fio absorvível (Vicryl 0 ou 1) em padrão contínuo simples.
Musculatura
Fechamento em camadas (oblíquos e transverso), com padrão contínuo simples com ancoragem ou Wolff.
Subcutâneo e pele
Subcutâneo pode ser deixado aberto em caso de contaminação; a pele é fechada com nylon ou fio de pesca em padrão U interrompido.
Pós-operatório
Antibióticos: ceftiofur, gentamicina, penicilina (as doses citadas em aula ficam no módulo de antibióticos)
Digestivo: metronidazol (importante contra anaeróbios)
Anti-inflamatórios: piroxicam e meloxicam (flunixin meglumina) — importantes na prevenção de endotoxemia
Suporte: soro vitaminado e fluidoterapia, conforme o estado clínico
Curativo da ferida duas vezes ao dia, com pomada cicatrizante associada a antibiótico tópico (ganadol) e, depois, spray de prata
Mínimo de 10 a 14 dias de tratamento, com restrição de espaço e avaliação diária da ferida
Complicações e prognóstico
Peritonite e infecção da ferida cirúrgica
Retenção de placenta (principais fatores de risco: parto gemelar, distocia, cesariana e placentite)
Metrite e endotoxemia
Hemorragia uterina e aderências intra-abdominais
Em vacas com grande comprometimento sistêmico (desidratação severa, endotoxemia, acidose), a cesariana não é indicada.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
A orquiectomia é um procedimento comum em bovinos e bubalinos, podendo ser realizada em animais jovens (bezerros) ou adultos. O objetivo é o manejo comportamental e reprodutivo (evitar monta indesejada) e/ou terapêutico (neoplasias testiculares, criptorquidia, orquite).
Anestesia e contenção
Contenção: tronco de contenção com o animal em estação; em bezerros, pode-se usar decúbito lateral (contenção manual ou em decúbito)
Sedação: xilazina 2% (dose média de 0,05 a 0,1 mg/kg IV) — sedação e analgesia, com efeito adverso de bradicardia
Bloqueio local: lidocaína 2% sem vasoconstritor — bloqueio do nervo pudendo interno (infiltração do cordão espermático) e/ou bloqueio do nervo genitofemoral (infiltração local na pele escrotal)
Em bezerros e jovens, com contenção segura, pode-se dispensar a sedação
Doses de detomidina citadas em aula
Cabeça apenas abaixada
Detomidina 0,1 mL/100 kg (IV), associada à butorfanol 0,35 mL/100 kg.
Cabeça abaixada, com apoio no quadril
Detomidina 0,2 mL/100 kg (IV), associada à butorfanol 0,35 mL/100 kg.
Cabeça abaixada, sem apoio
Detomidina 0,4 mL/100 kg (IV), associada à butorfanol 0,35 mL/100 kg.
Decúbito
Detomidina 0,8 mL/100 kg (IV), associada à butorfanol 0,35 mL/100 kg.
Protocolos de indução e TIVA citados em aula
Indução com propofol (6 mg/kg IV) ou tiopental (6 mg/kg IV) após pré-medicação com xilazina
Manutenção com isoflurano: 1,5 a 3,0% em bovinos
TIVA: em procedimentos curtos, associação de guaifenesina + xilazina + tiletamina/zolazepam (protocolo citado em aula)
Em bovinos, a anestesia geral é evitada sempre que possível — prefere-se o bloqueio local com o animal em estação
Como a anestesia geral é pouco utilizada, os protocolos são pouco documentados e variam entre os autores. Todo protocolo deve considerar o estado clínico do animal, o tempo do procedimento e a necessidade de analgesia pós-operatória.
Técnicas
Técnica aberta
A túnica vaginal parietal é aberta e o cordão espermático é seccionado fora dela (liga-se o cordão antes da seção).
Técnica fechada
A túnica vaginal parietal permanece intacta e é ligada em conjunto com o cordão espermático.
Incisão na pele escrotal e exposição do testículo
Exposição, ligadura e seccionamento do cordão espermático (uso de emasculador ou ligadura com fio absorvível)
Remoção do testículo e epidídimo
Antissepsia local e curativo
Pós-operatório
AINEs: meloxicam ou flunixin meglumina
Antibiótico: ceftiofur (à critério do médico-veterinário)
Curativo local e monitoramento
Complicações e prognóstico
Hemorragia e hematoma escrotal
Infecção local, abscessos, orquitema e edema
Peritonite local e hérnia de tecido (eventração)
Comportamento de touro (quando há tecido testicular remanescente ou na técnica incompleta)
Está indicado o exame de controle entre 30 e 60 dias, incluindo exame de libido e de monta (comprovando que o animal não monta mais)
Prognóstico favorável. O procedimento é bem aceito e de rápida recuperação quando realizado corretamente.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
O rufião é o macho utilizado para detectar fêmeas em cio na reprodução assistida. O preparo tem como objetivo impedir a cópula, mantendo o comportamento e a libido.
Técnicas citadas em aula
Vasectomia
Seccionamento dos ductos deferentes; mantém a libido e a monta. O animal continua montando e servindo, porém não há liberação de espermatozoides.
Epididimectomia
Remoção da cauda do epidídimo, preferencialmente bilateral; mantém a monta e a libido, sem liberação de espermatozoides.
Desvio do pênis
Modificação cirúrgica do trajeto peniano (desvio prepubiano ou lateral), impedindo a penetração durante a monta.
Fimose
Fechamento parcial do prepúcio (técnica menos utilizada, com risco de fibrose e obstrução).
Em casos de rufião, é preferencialmente indicada a epididimectomia (procedimento mais seguro e menos traumático).
Anestesia e contenção
Contenção: tronco de contenção; em bezerros, contenção manual ou decúbito lateral
Sedação: xilazina 2% (0,05 a 0,1 mg/kg IV)
Bloqueio local: lidocaína 2% sem vasoconstritor, na linha mediana escrotal ou na pele adjacente
Vasectomia — técnica cirúrgica
Passo a passo
1Tricotomia ampla na região escrotal, do prepúcio ao períneo (antes do prepúcio)
2Antissepsia com clorexidina ou iodopovidona
3Infiltração local com lidocaína 2% sem vasoconstritor
4Incisão na pele escrotal próxima à cabeça do epidídimo (região lateral do escroto)
5Divulsão do tecido subcutâneo e exposição da túnica vaginal
6Seccionamento dos ductos deferentes (segmento de aproximadamente 4 a 5 cm)
7Fechamento da túnica vaginal e da pele (subcutâneo geralmente não é fechado)
Pós-operatório
AINEs: flunixin meglumina ou meloxicam
Antibiótico: penicilina ou ceftiofur
Curativo local, hidratação e higiene
O animal deve permanecer sem contato com fêmeas por pelo menos 30 dias, até a confirmação da eficácia do procedimento (exame de sêmen).
Complicações e prognóstico
Infecção local e abscessos
Hemorragia, hematoma e edema
Recanalização do ducto deferente (principal falha técnica, com retorno da fertilidade)
Prognóstico favorável, com grande importância para a reprodução assistida.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Conceito e avaliação
Acropostite é a inflamação da extremidade do prepúcio, frequentemente após trauma e exposição da lâmina interna. Edema, ulceração, necrose e fibrose podem estreitar o óstio e causar fimose. Touros zebuínos com prepúcio penduloso, óstio amplo, falha muscular e manejo em pastagens traumáticas apresentam maior risco.
Examinar exteriorização do pênis, micção, extensão da necrose e presença de abscesso
Tratar precocemente edema, contaminação e trauma antes de decidir pela cirurgia
Disúria, estrangúria ou retenção urinária exigem atendimento imediato
Tratamento cirúrgico
A postoplastia remove tecido fibrosado e reconstrói um óstio funcional. Na técnica em pétalas de lírio, a lâmina interna viável é dividida em retalhos e suturada ao novo óstio cutâneo, mantendo drenagem entre pontos. A técnica em V é alternativa selecionada, mas a retração cicatricial pode estreitar o óstio.
Pós-operatório e complicações
Hidroterapia fria, analgesia, higiene local e repouso sexual conforme orientação
Vigiar seroma, abscesso, deiscência, necrose, fibrose e estenose do novo óstio
Reavaliar micção e capacidade de exteriorização antes do retorno à reprodução
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Considerações gerais
A amputação peniana é indicada em neoplasias penianas (nódulos e placas), neoplasia do prepúcio, fibropapilomatose (papilomatose genital) e traumas extensos. As neoplasias penianas são raras em bovinos, embora a fibropapilomatose (causada pelo papilomavírus) seja a mais comum.
Acropostite
Inflamação do prepúcio, comum em bovinos, geralmente associada a herpesvírus (BoHV-1) e a traumas em monta natural. Provoca dor à monta, edema, hiperemia, erosões e secreção purulenta. O tratamento consiste em anti-inflamatórios, antibióticos e descanso sexual por 30 a 60 dias; nos casos crônicos, pode ser necessária a ressecção cirúrgica (postectomia ou amputação).
Anestesia e contenção
Contenção: tronco de contenção, animal em estação (com anestesia local — preferencialmente bloqueio do nervo pudendo interno bilateralmente e infiltração local)
Sedação: xilazina 2%
Bloqueio local: lidocaína 2% sem vasoconstritor (bloqueio do nervo pudendo interno)
Nos casos mais graves, pode-se usar anestesia geral (indicada quando o animal tem libido intensa e a monta pode ocorrer durante o procedimento)
O bloqueio do nervo pudendo interno é essencial para a técnica. Nos casos em que há extirpação de neoplasia extensa, a combinação de bloqueio local e anestesia geral é o mais adequado.
Técnicas citadas em aula
Amputação do pênis distal (parcial)
Ressecção da porção distal do pênis, com anastomose da uretra à pele. Indicada em neoplasias restritas à porção distal.
Ressecção subpubiana (completa)
Retirada total do pênis, com confecção de estoma uretral no períneo. Indicada em neoplasias extensas, traumas graves ou doenças crônicas irreversíveis.
Técnica cirúrgica (amputação distal)
Passo a passo
1Contenção e antissepsia da região prepucial
2Anestesia local: bloqueio do nervo pudendo interno e infiltração da região da lesão
3Exteriorizar o pênis e identificar a lesão
4Isolamento da lesão, com preservação máxima de tecido saudável
5Ligadura dos vasos (corpos cavernosos e artéria peniana)
6Seccionar a uretra, preservando-a para a anastomose
7Sutura da mucosa uretral à pele (neouretra / estoma peniano)
8Fechamento por segunda intenção ou fechamento parcial, com drenagem
Em casos de amputação peniana total, o animal não é capaz de realizar a monta. Não há prevenção específica; o manejo preventivo é a vacinação contra papilomavírus e o controle de traumas na monta natural.
Pós-operatório
AINEs: flunixin meglumina e meloxicam
Antibiótico: penicilina ou ceftiofur
Digestivo: metronidazol
Curativo local, com pomada cicatrizante e antibiótico tópico (ganadol) e, depois, spray de prata
Retirada de sutura entre 10 e 14 dias
Mínimo de 10 a 14 dias de tratamento e restrição de espaço
Complicações e prognóstico
Infecção local e deiscência
Hemorragia e hematoma
Estenose da neouretra e retenção urinária
Recidiva da neoplasia
Incontinência urinária ou dificuldade de micção
Prognóstico favorável nos casos restritos; reservado nos casos de neoplasias extensas ou recidivantes.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O instrumental é organizado por função. Conhecer cada grupo agiliza a cirurgia, reduz o trauma tecidual e evita contaminação da mesa.
Diérese (corte)
Cabo e lâmina de bisturi (nº 3 com lâminas 10, 11, 15; nº 4 com lâminas 20–24), tesouras de Metzenbaum (tecidos delicados) e Mayo (tecidos densos e fios).
Preensão
Pinças de dissecção anatômica (sem dente, vísceras) e dente de rato (pele, fáscia); pinças de Allis e Babcock para órgãos.
Hemostasia
Pinças de Halsted (mosquito), Kelly, Crile, Rochester-Carmalt e Rochester-Péan, escolhidas conforme o calibre do vaso e a espessura do pedículo.
Afastamento
Afastadores manuais de Farabeuf e Senn-Miller; autoestáticos de Gelpi, Weitlaner e Balfour (abdominal).
Síntese
Porta-agulhas de Mayo-Hegar e Mathieu, agulhas cilíndricas (vísceras) e cortantes/triangulares (pele).
Especiais
Emasculador (orquiectomia), serra de Gigli e fio-serra (descorna, amputação de dígito), pinça de Backhaus (fixação de panos de campo).
Organização da mesa
Passo a passo
1Dispor os instrumentos na ordem de uso: diérese, preensão, hemostasia, afastamento, síntese
2Manter compressas contadas no início e no fim do procedimento
3Devolver cada instrumento à mesa após o uso, com as pontas voltadas para o mesmo lado
4Separar material contaminado (após abertura de víscera) do material limpo
A empunhadura correta do bisturi (tipo lápis para incisões finas, tipo arco de violino para incisões longas) reduz o trauma e melhora o controle.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O fio ideal é resistente, seguro no nó, pouco reativo e de fácil manuseio. A escolha depende do tecido, do tempo de cicatrização e do grau de contaminação.
Absorvíveis
Categute (reativo, absorção rápida e irregular), poliglactina 910, ácido poliglicólico, polidioxanona e poliglecaprone — usados em vísceras, subcutâneo e ligaduras.
Inabsorvíveis
Nylon (pele), polipropileno (vasos e tendões), poliéster e seda — permanentes ou removidos após a cicatrização.
Monofilamentar × multifilamentar
Monofilamentos abrigam menos bactérias e são preferidos em feridas contaminadas; multifilamentos têm melhor segurança no nó.
Calibre
Quanto mais zeros, mais fino (ex.: 3-0 mais fino que 0). Em grandes animais usam-se calibres grossos (0 a 3) na parede abdominal.
Padrões de sutura
Interrompidos
Simples separado, Wolff (U horizontal), Donati (U vertical) e X (Sultan) — seguros: se um ponto falha, os demais mantêm a ferida fechada.
Contínuos
Simples contínuo, festonado (Ford) e intradérmico — mais rápidos e econômicos, porém dependem de um único nó.
Invaginantes
Cushing, Lembert e Schmieden — usados em vísceras ocas (rúmen, útero, abomaso) para vedação sem expor a mucosa.
Útero na cesariana: dupla camada invaginante (Cushing seguido de Lembert ou Utrecht)
Rúmen: Schmieden ou Cushing após fixação em anel/fixador de Weingarth
Parede abdominal: planos separados, simples contínuo ou Sultan com fio absorvível grosso
Pele: nylon com pontos separados ou festonado, removidos em 10–14 dias
Sutura muito apertada causa isquemia e deiscência; o objetivo é aproximar as bordas, não estrangulá-las.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Hemostasia adequada mantém o campo visível, reduz a perda sanguínea, o risco de hematoma, infecção e deiscência.
Mecânica
Compressão com compressa, pinçamento, ligadura simples ou transfixante, torção e garrote (analgesia de Bier em extremidades).
Térmica
Eletrocautério monopolar ou bipolar e termocautério (descorna em bezerros).
Química e tópica
Esponja de gelatina, celulose oxidada, cera óssea (seios frontais e cornos) e adrenalina diluída local.
Ligadura transfixante em pedículos grandes (cordão espermático, vasos uterinos)
Tamponamento com compressa na órbita após enucleação
Retirada gradual do garrote para observar e controlar pontos sangrantes
Perdas acima de 20–25% da volemia exigem reposição e considerar transfusão (ver módulo de Transfusão Sanguínea).
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Passo a passo
1Inflamatória (0–5 dias): hemostasia, coágulo e migração de neutrófilos e macrófagos
2Proliferativa (3–21 dias): tecido de granulação, angiogênese e epitelização
3Maturação (semanas a meses): remodelação do colágeno e ganho de resistência
Primeira intenção
Bordas aproximadas por sutura, ferida limpa: cicatriz mínima e rápida.
Segunda intenção
Ferida aberta que cicatriza por granulação e contração — comum em amputação de dígito e feridas contaminadas.
Terceira intenção
Fechamento tardio após controle da infecção.
Fatores que prejudicam
Infecção, corpo estranho e tecido necrótico
Tensão excessiva e movimento da região
Hipoproteinemia, anemia, desidratação e má perfusão
Uso prolongado de corticoides
Miíases — atenção especial a moscas no pós-operatório de ruminantes
Em equinos, feridas distais nos membros tendem a formar tecido de granulação exuberante, que pode exigir bandagem e desbridamento.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Seroma e hematoma
Acúmulo de líquido ou sangue no espaço morto. Prevenção: hemostasia e redução do espaço morto; tratamento: drenagem e compressão.
Infecção do sítio cirúrgico
Calor, dor, edema e secreção purulenta após 3–5 dias. Tratar com drenagem, limpeza e antibioticoterapia guiada por cultura.
Deiscência
Abertura da ferida por tensão, infecção ou falha do fio. Na parede abdominal pode levar a evisceração — emergência cirúrgica.
Peritonite
Após laparotomia, ruminotomia ou cesariana: febre, dor, íleo e alterações no líquido peritoneal.
Aderências
Reduzidas com manipulação delicada, lavagem e vedação correta das vísceras.
Hérnia incisional
Aparece semanas depois; associada a deiscência parcial da musculatura.
Monitoramento
Temperatura, frequência cardíaca e respiratória diariamente
Apetite, ruminação, defecação e micção
Inspeção diária da ferida e troca de curativos
Comportamento indicativo de dor (escala de dor quando possível)
Identificar a complicação cedo muda o prognóstico: qualquer alteração deve ser comunicada ao veterinário responsável.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
O PDF de sala de aula foi incorporado como material-base, incluindo as doses e protocolos citados em aula, apresentados como referência de estudo — e não como prescrição. Protocolos variam entre bovinos, equinos, pequenos ruminantes e pacientes de diferentes idades e condições sistêmicas.
Confirmar dose, concentração, via e intervalo em fonte farmacológica atual antes do uso
Considerar carência de medicamentos em animais destinados à produção de alimentos
Não usar antibiótico automaticamente: a indicação depende de contaminação, infecção e risco individual
Adaptar anestesia e fluidoterapia à monitorização e à resposta do paciente
Material de estudo; não substitui avaliação, prescrição e supervisão do médico-veterinário responsável.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
A cirurgia veterinária não se resume ao momento da incisão e do fechamento da ferida. Ela envolve uma sequência de etapas que começa com a avaliação do paciente, passa pelo planejamento, preparo, anestesia, técnica cirúrgica, controle da dor, fluidoterapia e termina com o acompanhamento pós-operatório.
A segurança do procedimento depende da integração entre avaliação clínica, técnica asséptica, planejamento anestésico, conhecimento anatômico, escolha adequada dos materiais, controle da dor, manutenção da perfusão e acompanhamento pós-operatório.
Cada paciente deve ser avaliado individualmente: espécie, idade, peso, condição clínica, tipo de procedimento e recursos disponíveis influenciam diretamente a escolha da técnica e do protocolo terapêutico.
Conteúdo de estudo — não substitui a avaliação do médico-veterinário responsável.
Material impresso
Resumo pós-operatório em PDF
Gera um documento em texto corrido, escrito e pronto para impressão, com os pontos-chave dos cuidados pós-operatórios — ambiente, alimentação, analgesia, ferida, monitorização e particularidades por procedimento.
Ferramenta prática
Estimativa à beira do leito
Calculadora de déficit hídrico
Déficit (L) = peso corporal (kg) × percentual de desidratação. Estimativa inicial — o paciente deve ser reavaliado durante a reposição.